ADEUS A MANOEL CARLOS (1933-2026): A CANETA QUE TRANSFORMOU O DIA A DIA EM OBRA DE ARTE SE DESPEDE, MAS SUAS HELENAS SE TORNAM ETERNAS.



ADEUS A MANOEL CARLOS (1933-2026): A CANETA QUE TRANSFORMOU O DIA A DIA EM OBRA DE ARTE SE DESPEDE, MAS SUAS HELENAS SE TORNAM ETERNAS. 

​Por Gilson Romanelli

Especial para as Artes

​O Rio de Janeiro amanheceu com um tom de azul mais nostálgico neste sábado, 10 de janeiro de 2026. Partiu, aos 92 anos, Manoel Carlos, o nosso eterno "Maneco". A notícia, confirmada pela família, encerra um capítulo fundamental da dramaturgia brasileira. O autor, que estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, lutava contra a Doença de Parkinson, que no último ano havia fragilizado seu desenvolvimento motor e cognitivo. ​Maneco não apenas escrevia novelas; ele desenhava a alma da crônica cotidiana. Se o Leblon hoje é visto como um lugar quase mitológico, como bem define o crítico Mauro Ferreira, é porque a caneta de Manoel Carlos transformou suas ruas, cafés e a brisa do mar em palcos de dramas universais.

​A Força das Helenas



Baila Comigo (1981) Lilian Lemmertz A Matriarca Sofrida. Discreta e contida. Escondeu do filho a existência do seu irmão gêmeo.

História de Amor (1995) Regina Duarte A Helena "Vizinha". Doce, romântica e muito próxima do público. Lutar pelo amor de Carlos contra as vilãs Paula e Sheila.

Por Amor (1997) Regina Duarte A Helena Sacrificada. Talvez a mais famosa e controversa. O sacrifício supremo: trocou seu filho vivo pelo neto morto para poupar a filha.

Laços de Família (2000) Vera Fischer A Helena Solar. Independente, dona de clínica de estética e decidida. Abriu mão do namorado (Edu) e engravidou para salvar a vida da filha (Camila).

Mulheres Apaixonadas (2003) Christiane Torloni A Helena Inquieta. Elegante, questionadora e cansada da rotina. Abandonar a segurança do casamento com Téo para reviver uma paixão do passado.

Páginas da Vida (2006) Regina Duarte A Helena Humanitária. Médica, forte e ligada a causas sociais. Adotou uma menina com síndrome de Down que foi rejeitada pela avó.

Viver a Vida (2009) Taís Araújo

​A marca indelével de sua obra foi, sem dúvida, a figura da Helena. Desde 1981, com Lilian Lemmertz em Baila Comigo, Maneco estabeleceu um arquétipo: mulheres fortes, imperfeitas e movidas por um amor maternal que desafiava qualquer lógica.

​Ao longo das décadas, vimos atrizes icônicas darem vida a essas protagonistas:

​Regina Duarte: A Helena por excelência em três ocasiões, incluindo a memorável médica de Páginas da Vida (2006).

​Taís Araújo: Em 2009, rompeu barreiras como a primeira Helena negra em Viver a Vida.

​Júlia Lemmertz: Em um gesto poético, encerrou o ciclo em Em Família (2014), homenageando o legado iniciado por sua mãe.

Para o Público, para quem assistia, a Helena representava um espelho e um ideal: Identificação e Empatia: O público via naquelas mulheres dilemas que poderiam ser seus: traições, doenças na família, crises no casamento e a dificuldade de envelhecer. O Estilo de Vida "Leblon": Havia um fascínio pelo universo aspiracional das Helenas — os cafés da manhã fartos, as caminhadas no calçadão, a bossa nova e a elegância sofisticada, mas simples (o "chic" sem esforço). Julgamento Moral: As atitudes das Helenas geravam debates nacionais. O público muitas vezes se dividia entre apoiar suas decisões éticas duvidosas ou condená-las, o que mantinha as novelas no centro das conversas.

​O Legado



​Em resumo, a Helena de Manoel Carlos representava a ideia de que toda mulher carrega uma tragédia e uma beleza cotidiana. Ela transformou o papel da "protagonista de meia-idade" em algo central, provando que as histórias de mulheres maduras eram as mais interessantes da TV.

​Trajetória de um Mestre

​Embora consagrado como autor, Maneco era um homem de televisão completo. Começou nos palcos aos 17 anos e brilhou como ator no "Grande Teatro Tupi". Passou por Record, Excelsior e TV Rio, onde dividiu redações com gênios como Ziraldo e Chico Anysio, além de produzir pérolas como a Família Trapo e O Fino da Bossa. Na TV Globo, sua estreia em 1972 foi como diretor-geral do Fantástico. Mas foi na teledramaturgia que ele encontrou sua voz definitiva. Maneco tinha o dom de tratar temas densos — como doação de medula, alcoolismo e inclusão social — sob a luz clara do Rio. "As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo", dizia ele, justificando a leveza que imprimia mesmo aos conflitos mais amargos.

​"O ódio, a inveja, o ciúme... eu retrato só essas coisas. E isso tudo existe em qualquer família." — Manoel Carlos (1933-2026)

​O Adeus Silencioso

​Aposentado desde 2014, o autor vivia recluso com a família, deixando um legado que se confunde com a própria história da comunicação no Brasil. Ele deixa as filhas Júlia Almeida e Maria Carolina. Em respeito ao seu desejo de privacidade, o velório será restrito a familiares e amigos íntimos. O Brasil se despede hoje do cronista do afeto, do homem que fez do cotidiano uma obra de arte e que, através de suas Helenas, ensinou que o amor — com todas as suas falhas — ainda é a melhor história a ser contada.


Gilson Romanelli-Jornalista 

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